Férias. Intervalo merecido para corpo e mente, a ser desfrutado langidamente em meio a uma paisagem deslumbrante entre o mar e o campo, certo?
Errado.
Pra mim, férias são aqueles dias em que eu amasso minhas roupas numa mala desproposital – em que faltam coisas e sobram outras no fim da jornada -, pulo do aeroporto pra estação de trem, tiro um monte de fotos tremidas e, em ritmo de gincana do SBT, começo o dia visitando um mosteiro (emendando com castelo-museu-mirante-bistrô-monumento) e termino, com a língua de fora e os pés no maior estilo Abaporu, no boteco menos recomendado da cidade.
E, é claro, são dias de gastar dinheiro com toda a sorte de cacarecos imbecis à disposição dos turistas empolgadões.
Eu, apesar de ter resistido bravamente às tentações por dias, acabei caindo na tal armadilha nas minhas últimas férias.
Não me perguntem o porquê, mas fui parar em Glasgow no mês passado – não, não conheço vivalma por lá. Disseram que a cidade era legal e eu acreditei. Ao contrário dos municípios vizinhos, repletos de atrações, Glasgow não é uma cidade turística. É linda, cosmopolita, cheia de arranha-céus, cheio de gente bacana, mas meio sisuda.
Bem naquele fim de semana, a cidade abrigaria o Campeonato Mundial de Bandas de Gaita de Fole. Isso mesmo. Bandas de 12 países (entre eles Paquistão, Canadá e Austrália) esmerilham suas gaitas e bumbos em busca da glória mundial.
Você já ouviu uma gaita de fole ao vivo? Para os desacostumados, é mais ou menos como estar no meio de abelhas com TPM que resolveram montar uma colmeia dentro de um órgão de igreja. Dá vontade de abater a gaita (não o instrumentista, que costuma ser um fofo) a tiros. Causa muita dor na alma e perfuração no tímpano.
Mas voltemos ao campeonato. Sem mais nada para fazer em Glasgow, fui acompanhar a peleja internacional.
E não sei se foi a visão de vários louros altos de saia xadrez, a cerveja quente ou a batata recheada com haggis (cozido de miudos de ovelha)... o fato é que eu me joguei de corpo e alma, curti horrores. Torci pelo time da casa, filmei as apresentações, tirei fotos tremidas, levantei kilts de incautos e circulei satisfeita por horas.
Mas não era o suficiente para eternizar o momento. Eu precisava de um recuerdo da progressista Glasgow.
Lembre-se: Glasgow não é para turistas. Portanto, nada de chaveiro. Nem um ímã de geladeira sequer. Nem toalhinha. Uns postais vagabundos e olhe lá. Até que...
Naquela loja, naquela prateleira, ali no fundo, vejo um CD com uma capa inebriante (medonha), com o título “Pararell Tracks”. Era a coletânea dos maiores clássicos da gaitinha executados pela Banda-Marcial-Real da Escócia, ou algo parecido. Ao invés de guardar a grana para um café com bolo, torrei 12 libras no disquinho, o equivalente a 35 reais. Valeu a pena, pensei.
Pulo no tempo.
Ao voltar para São Paulo, já saudosa das minhas férias e sedenta por outras, resolvo ouvir o CD no carro.
Às 6h30 da tarde, tentando descer a rua da Consolação.
Aquele fuén-fuén-fuén misturado com buzinas de motoboys, motor de ônibus desregulado foi demais para meus pobres ouvidinhos. Foi "me dando nos nelvo".Esmurrei o volante, ri da minha própria cara, arremessei o CD no banco de trás e me afundei em autocomiseração.
Hoje, o pobrezinho está lá, dentro de uma imensa caixa de trastes recolhidos em viagens anteriores: pratinhos, canetinhas, camisetas, bonequinhos, chaveirinhos, vidrinhos de areia colorida, colares de miçangas... uma memorabilia de desperdício e cafonice.
A caixa me faz prometer não cometer mais essas pequenas extravagâncias que só ocupam espaço e custam verdadeiras fortunas. Juro que desse beliche eu caio mais.
Pelo menos, até a próxima viagem.
Ah, Naka, eu achava q era muito, muito pior! hahaha
Clau, taconvidada a ficar comigo no congestionamento ouvindo esse troco, amore.
Dá pra mim que eu já sei quem merece ganhar essa preciosidade no próximo Natal! hauhauhauhauahuah
Kkkkkkkkkk… Eh uma fila de merecimentos enoooormes, viu? Ta disputado!
Gaita de fole? Normal, a sua pessoa usualmente tem um gosto eclético…